Imagine você acordando atrasado para o trabalho. Tudo parece dar errado naquele fatídico dia: erra a roupa, carro não liga, ônibus não passa, elevador não funciona, escritório fica no 18º andar, chefe te xinga. Todo esse dia torna-se um martírio. Sua raiva aumenta à medida que as horas passam. Até que em um ato de rebeldia você grita aos quatro cantos: “vou pedir demissão!”.

A dose real de adrenalina faz seu corpo relaxar, a mente voltar a si e lembrar dos boletos acumulados sob a mesa, da ração do cachorro, do presente de aniversário para o cônjuge. Nesse momento você retorna à interminável planilha, engole o grito e finge para todos que nada ali aconteceu de verdade. Essa é a conhecida agressividade.

Ao contrário do que está escrito no dicionário, essa agressividade é quando você observa os elementos antagônicos na vida que leva, tendo em um ato de rebeldia, dizer aquilo que pensa. Desveste-se da personagem ora empregada no palco social, e começa a demonstrar com ações seu verdadeiro jeito de ser. Erving Goffman, famoso sociólogo americano, cunhou o termo “palco social” em seu livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” (1959).

Para Goffman, somos todos atores com objetivo de controlar a percepção das pessoas sobre nós, em um processo chamado de gerenciamento de impressões. É uma fachada sobre aquilo que nós somos, enquanto a realidade acontece fora da vista do público. Essa metáfora, por assim dizer, divide-se em três regiões:

Palco

Onde ocorre a encenação e local onde o indivíduo assume um papel específico, sabendo que está sendo observado. Neste lugar o indivíduo — ator por assim dizer — projeta suas intenções para atender às normas sociais ali estabelecidas ou da instituição a que pertence. Seria cuidar em dizer certas palavras, parecer polido, querer estar sempre disponível, vestir-se de forma adequada.

Esse comportamento é comum em empresas onde existe determinado código de conduta informal, ou seja, práticas realizadas pelas pessoas sem que sejam ditas. Exemplos disso são mais banais do que se imagina. Um deles é dizer “bom-dia” quando se entra em alguma sala. Por mais que seu dia esteja sendo algo péssimo, é de “bom tom” cumprimentar as pessoas com algo agradável.

Este palco se divide em cenário, onde a ação acontece e fachada pessoal, que são os elementos carregados pelo ator, podendo ser roupas, formas de falar, posturas, vocabulário.

Bastidores

Essa é a região à qual o público, que está no palco, não tem acesso. Aqui a performance é suspensa, podendo o ator relaxar, abandonar a formalidade, expressando emoções inaceitáveis no palco. Também serve para ensaiar ou planejar a próxima apresentação.

Quando chegamos em casa colocamos uma roupa confortável, assistimos à TV, falamos palavrões, temos uma postura bem distinta de quando atuamos no palco. Mas, isso também ocorre dentro das instituições: reuniões com uma equipe no meio de um incidente pode revelar o caos na resolução do problema, enquanto na frente dos outros transmite uma sensação de controle absoluto.

Outside

Neste local o indivíduo (ator, em nosso caso) não está representando nenhum papel e nem mesmo está nos bastidores daquela performance. Aqui ele assume outros papéis, em outros contextos da vida.

Porém, muitas vezes estamos em palcos diferentes, performando continuamente, sem ter esse momento de bastidores ou ficar de fora do tumulto, somente observando.

[!NOTE] Este ensaio faz parte das publicações analíticas da DeRossi Consultoria Estratégica. Para receber nossas análises estratégicas diretamente no seu e-mail, assine nosso Substack.

Quando o palco captura seu gerenciamento de representação

No século XXI, a representação do palco social se tornou regra. Infelizmente, em poucos lugares podemos ser nós mesmos, sem que isso seja visto como algo agressivo ou anormal. Por mais que façamos um esforço para agir sob a nossa própria consciência moral, ou com base em nossa própria visão de mundo, sofremos retaliações.

Para Goffman, quando alguém foge da normalidade do palco social é considerado agressivo, gerando um incidente. A partir deste incidente ocorre uma ruptura na máscara social, forçando o restante do grupo social aplicar sanções para restabelecer a ordem do palco. Para esse restabelecimento é preciso retirar de cena o desviante, trancando-o em “bastidores absolutos”, seja em sentido real (prisões ou manicômios) ou figurados (rotulando de pária).

Isso gera um estigma, na revelação da sua Identidade Social Real, ao invés de uma Identidade Social Virtual. Esta atribuição marca profundamente o indivíduo de maneira depreciativa, reduzindo-o de uma “pessoa inteira e comum” a uma pessoa “estragada e diminuída”. Pessoas que apresentam comportamentos, crenças ou históricos lidos como fraqueza moral ou paixões não naturais como fanatismo político podem ser estigmatizadas pela sociedade.

Na sociedade, esses considerados estigmatizados ameaçam a fluidez da encenação, gerando uma “ideologia” para explicar a inferioridade da pessoa estigmatizada ou para justificar a redução de suas oportunidades. Erros e falhas cometidos por essa pessoa são considerados consequência direta do seu estigma, seja por incapacidade moral ou por deficiência aparente. Por fim, existe uma falsa aceitação do estigmatizado, tornando a interação social exaustiva e artificial para ambos os lados.

Para sobreviver no palco social, o estigmatizado desenvolve técnicas de controle de informação, ou trabalhando exaustivamente para se passar por “normal”, vivendo medo constante em ser descoberto; ou realizando piadas autodepreciativas, adaptando seu comportamento para tornar os “normais” mais relaxados, como se estivesse pedindo desculpas por estar fora das normas.

Outros, por sua vez, tornam o próprio estigma como marca de subversão. Assim, agem para criar uma ruptura no palco social contemporâneo, notoriamente propenso a construir espectadores dóceis e quietos, agindo fora da normalidade de maneira política.

Guy Debord, escritor francês de meados do século XX, criticava a sociedade contemporânea, tanto em sua forma capitalista quanto em sua forma socialista. Em sua visão a sociedade do espetáculo advinha dos dois polos, onde ambos queriam apenas espectadores dóceis e quietos, sem ação sobre a própria vida. Portanto, a normalidade social é uma ilusão pacificada, e agir fora dessa dicotomia pacificada rompe com a forma alienada de enxergar a realidade.

Quebrando a normalidade

É possível quebrar a normalidade ao utilizar a agressividade ou disrupção estética/social como uma ferramenta revolucionária. Rompe-se com o fluxo normal do espetáculo ao fazer uma intervenção agressiva, acorda o espectador de sua letargia. Porém, a normalidade social é resiliente, e tenta absorver a agressividade, para vendê-las como narrativa ou entretenimento. Para romper com a inércia a ação não pode ser sutil, precisa ser agressiva suficiente para paralisar o maquinário.

Uma das formas é sequestrar os elementos culturais pré-existentes criando uma nova mensagem, antagônica ao sistema, agindo como plágio revolucionário. Roubar a linguagem da publicidade, dos discursos políticos e de outros elementos “normais” faz que a revolução ocorra. Outra maneira é atacar o controle do espaço físico, modificando sua estrutura e permanência ali para algo que foge a regra convencional.

Discurso é agressivo?

No último debate entre os candidatos a presidente da República na Band, o candidato do Missão, Renan Santos, falou muito daquilo que os brasileiros queriam falar. Suas críticas foram diretas ao sistema contemporâneo onde vivemos, sem uma visão política romântica. É a realpolitik em sua máxima potência.

Para chamar atenção ao problema enfrentado por todos nós: inflação, carestia, endividamento massivo, precarização do mercado de trabalho, transferência de renda sem critérios, entre outros; ele precisava de uma tática. Essa mesma tática foi utilizada pelo MBL durante as manifestações contra o governo de Dilma Rousseff em 2015, depois nas críticas a Jair Bolsonaro em 2021, e outros tantos outros políticos.

Sua fala soou agressiva para muitos, inclusive até mesmo Augusto Cury, candidato pelo Avante demonstrou isso durante o debate. Contudo, a provocação de Renan é mais óbvia: não podemos ficar inertes. Infelizmente, nosso país caminha na direção errada do mundo. Somos exportadores de commodities, não temos industrialização tecnológica suficiente, queremos reduzir a carga horária para apenas 4 milhões de empregados e possuímos um contingente brutal de pessoas na informalidade.

Prévias do PIB para o ano de 2026 trazem um cenário desanimador: entre 0,2% e 0,5% de crescimento. Enquanto cada dia mais e mais empresas entram com pedidos de recuperação, gerando incertezas na economia. Sem contar o gasto público que não para de crescer.

Agora, como demonstrar esse cenário desolador para quem assistia?

Se utilizasse de gráficos e números seria igual aos outros. Ficaria no mesmo lugar de fala que os políticos acostumados com planilhas, escondidos em estatísticas, sem sentir o verdadeiro clamor das ruas por mudanças. Precisava retirar as pessoas da inércia como fez em 2015, onze anos atrás, para buscar por mudanças. Renan optou sair do palco social, abriu mão da roupagem de candidato moderado, se usou da técnica das redes sociais, e levou ali para TV aberta aquilo que o Povo precisava saber.

Há quem considere agressiva a sua fala ao classificar os eleitores de Lula como enganados ou canalhas — embora, na prática, sejam uma coisa ou outra. Também há quem julgue agressivo o fato de ele chamar Lula e Flávio Bolsonaro de ladrões, afirmar que a companhia dos candidatos presentes era preferível a estar perto de Janja, ou referir-se a Érika Hilton como uma mulher de grande estatura. Mas qual seria a outra forma de demonstrar ao brasileiro que todos o enganam?

Ser estigmatizado pelo sistema político convencional pouco importa ao MBL, Missão e talvez ao próprio Renan. Atualmente a agressividade é a única forma para desvelar aquilo que é verdade: somos todos ovelhas, comandados por lobos.